
Foto: Dan Baron
Quando em maio de 1985 cerca de 1500 famílias ocuparam duas fazendas em Abelardo Luz, no oeste do estado, aparecia para o mundo o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra, uma organização que juntava agricultores na luta pela terra. Uma gente que plantava e produzia, mas sempre em terra alheia, trabalhadores, sujeitos aos humores dos grandes proprietários. Aquela ocupação abriu um caminho para os camponeses brasileiros que penavam no campo, sendo obrigados a migrar para as cidades, aprofundando ainda mais a miséria. Depois dela outras ocupações começaram a aparecer por todos os cantos do país, mostrando que aquele movimento vinha para ficar. Não eram um bando de “criminosos”como diziam alguns. Eram famílias organizadas que queriam trabalhar e produzir.
E assim, enquanto o MST crescia, garantindo terra e produção, a universidade também começou a perceber que ali estava algo novo de original, que precisava ser analisado. E, nos mais diversos cursos foram aparecendo pessoas – estudantes e professores – querendo observar mais de perto aquele movimento. Na UFSC não foi diferente. Já nos primeiros anos do MST surgiram trabalhos de final de curso e dissertações dispostos a narrar e compreender a luta dos agricultores. E, com o passar do tempo, a relação que era apenas de estudo passou a ser também de interação.
Na medida em que o MST avançava na luta era necessário realizar pontes com a cidade, afinal, a razão principal do movimento – produzir comida – estava visceralmente ligada com a mesa dos trabalhadores. E foi assim que os Sem-Terra começaram a também fazer parte da realidade citadina, realizando marchas, encontros, protestos e atividades políticas na capital. Imediatamente somaram-se ao MST os sindicatos, os movimentos sociais e as universidades – UFSC e UDESC. Todas essas forças passaram a desenvolver parcerias, seja no apoio político, seja no apoio estrutural. No caso das universidades, em pouco tempo, já havia um bom grupo de professores e alunos desenvolvendo projetos nos mais diversos campos do saber, em conjunto com o MST. Por várias vezes a universidade foi espaço de grandes encontros como foi o caso dos Encontros Estadual do Sem-Terrinha, que juntou crianças dos acampamentos e assentamentos para discutir a realidade do processo de reforma agrária. Mas foram muitos outros…
Essa relação de parceria, que se estreitava com pesquisadores, professores e estudantes, foi se aprofundando e abrindo veredas jamais imaginadas. Foram estes encontros cidade/campo, universidade/MST que levaram ao nascimento do PRONERA (Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária) no governo de FHC. E, a partir daí inúmeros outros projetos foram sendo criados, atuando na produção, comercialização e distribuição, que só fizeram avançar o conhecimento bem como a luta pela reforma agrária. Além disso, esse movimento cidade/campo faz nascer o Curso de Educação do Campo, hoje uma referência em todo o país.
Em 2025 celebraram-se os 40 anos do MST em Santa Catarina e um grupo de professores que já atua nesta parceria, em conjunto com a Udesc, decidiu criar um projeto chamado “Pontes de Esperança”, buscando recuperar a memória desta caminhada conjunta. Assim, com a ajuda de uma emenda parlamentar conquistada no processo comunitário do deputado petista Pedro Uczai, foi garantida uma verba para a gravação de depoimentos dos que ao longo dos anos consolidaram esta parceria. Além disso, também foi construída coletivamente – UFSC, UDESC e MST – uma proposta de monumento para marcar esse 40 anos de caminhada conjunta. Esse monumento, que dará destaque justamente para a memória – está sendo construído no lugar onde agonizava a velha Concha Acústica. O espaço será recuperado e ali será eternizada a memória desta relação campo e cidade, saber acadêmico/saber popular, universidade/MST. É bom registrar que esta é uma construção coletiva que envolveu mais de mil pessoas de todo o Estado, num processo de escuta respeitosa e que traduz a esperança de paz com justiça social, com o campo e a cidade irmanadas por um projeto agropedagógico de sustentação de todas as vida, e do planeta. O Monumento Pontes de Esperança, em linguagem artística, expressa horizontes de cura e integração de todos as formas de vida.
Os professores Paulo Capela (IELA) e Sandra Dalmagro coordenam o projeto que em breve deve inaugurar o monumento, bem como disponibilizar um espaço chamado “Memorial dos Trabalhadores e Trabalhadoras”, onde ficará eternizada a história deste longo processo de construção de uma sociedade justa. UFSC, UDESC e MST, juntos, ensinando e aprendendo. Não por acaso, o Memorial ficará na antiga sede dos Volantes, espaço histórico dos trabalhadores das UFSC. O caminho para esta parceria começou a ser trilhado com a concretização da memória destes trabalhadores da UFSC, os primeiros a se organizar em associação, também gravada em vídeo. Assim, o memorial, além de guardar a história da relação MST/UFSC e UDESC, guardará outros relatos da luta dos trabalhadores da própria UFSC. Um processo que deverá estar em construção constante.